Baseado na Teoria de Harvard
A negociação está presente na vida de todas as pessoas — da área jurídica ou não. Um bebê que chora já está negociando com os pais para conseguir alimento ou carinho. Ela acontece diuturnamente e em todos os níveis, tanto no âmbito pessoal quanto profissional.
Sempre há um vencedor e um perdedor. O ganho de um implica perda para o outro.
É possível criar valor para ambos os lados. O acordo pode ser bom para todos os envolvidos.
Romper esses paradigmas é o primeiro passo para assimilar a teoria da negociação de Harvard e alcançar resultados verdadeiramente satisfatórios.
Tribunais sobrecarregados e despesas altas tornam soluções mediadas especialmente benéficas.
Decisões consensuais são mais facilmente aceitas do que decretos judiciais unilaterais.
A conciliação permite examinar causas mais profundas e restaurar relacionamentos complexos.
I Reunião de Cúpula Ibero-Americana: Brasil se compromete a promover mecanismos alternativos de resolução de conflitos.
Os três Poderes registram compromisso de fortalecer mediação e conciliação, estimulando a autocomposição.
Art. 166, §3º: "Admite-se a aplicação de técnicas negociais, com o objetivo de proporcionar ambiente favorável à autocomposição."
"Um meio básico de conseguir o que se quer de outrem. É uma comunicação bidirecional concebida para chegar a um acordo, quando você e o outro lado têm alguns interesses em comum e outros opostos." — Fisher, Ury e Patton
Muitas concessões, benevolência excessiva, evita conflito a qualquer custo.
Comportamento áspero, deseja vencer a qualquer custo, prejudica acordos futuros.
Harvard propõe uma terceira via: a negociação baseada em princípios, que concilia as duas abordagens.
"O método consiste em decidir as questões a partir de seus méritos, não através de um processo de regateio. Ele sugere que você procure benefícios mútuos sempre que possível e insista em que o resultado se baseie em padrões justos." — Fisher e Ury
O conceito central é o ganha-ganha: criar mais valor antes de distribuí-lo. Metaforicamente, deve-se aumentar o bolo para só então cortá-lo.
Abolir acusações pessoais. Colocar-se no lugar do outro. Construir atmosfera favorável ao diálogo. O aspecto emocional não pode ser negligenciado.
Buscar o que está por trás das posições — os motivos reais. Só compreendendo os interesses do oponente é possível atender seus desejos sem prejudicar o próprio objetivo.
Duas irmãs brigavam pela única laranja da casa. A mãe, sem questionar, dividiu ao meio — solução aparentemente justa.
Uma queria a laranja para fazer suco; a outra queria apenas a casca para brincar. Ambas poderiam ter ficado com tudo se os interesses tivessem sido explorados.
O elemento mais importante de uma negociação é a informação, obtida a partir da fala do outro — desde que a pessoa esteja preparada para escutar.
Ouvir e compreender o que o outro fala, repetindo suas palavras para demonstrar que realmente ouviu.
Fingir que escuta enquanto prepara o contra-argumento. Escutar não gera presunção de concordância ou fraqueza.
"Escutar ativamente não é só ouvir, mas demonstrar ao outro que estamos interessados em entender o que diz. Uma negociação não é um debate, mas uma conversa para atingir um objetivo." — Zaparolli
Dominar as próprias emoções e compreender as do outro negociador.
Entender profundamente o tema em negociação — técnico, jurídico ou comercial.
Aplicar os métodos e ferramentas da teoria da negociação com habilidade prática.
Para compreender melhor a negociação, é útil distingui-la de outros mecanismos consensuais de solução de conflitos.
A arbitragem é regulamentada no Brasil pela Lei nº 9.307/1996, atualizada pela Lei 13.129/2015, limitada a direitos patrimoniais disponíveis.
A Escola de Harvard identifica elementos centrais que estruturam qualquer negociação. Os critérios objetivos são: Interesses, Opções, Legitimidade e Alternativas (MAPAN/MASA).


Concretas, explícitas e conhecidas pelos atores. Ex.: "Quero R$ 130.000 pelo veículo."
Normalmente ocultos, intangíveis e até inconsistentes. Ex.: "Preciso quitar o financiamento; os acessórios valem R$ 20 mil."
Latentes em qualquer negociação. Devem ser tratados primeiro para criar empatia. Ex.: bem-estar dos filhos em uma separação.
Aparentemente antagônicos. Exigem critérios objetivos para resolução. Não devem ser o único foco.
Podem ser complementares entre si. Ex.: as duas irmãs — uma queria o suco, a outra a casca. Interesses distintos, mas complementares.
Os interesses mais poderosos são as necessidades humanas básicas: segurança, bem-estar, pertencimento, reconhecimento e liberdade.
Detalhes concretos tornam a descrição plausível e impactante.
Reciprocidade é importante para a credibilidade e facilita o fechamento.
Exponha problemas e interesses primeiro; só depois ofereça conclusões.
Evite discussões reativas. Foque no que deve ser feito amanhã.
Trate cada opção como exemplo, mantendo flexibilidade.
Firme nos interesses, afável com as pessoas. Ataque o problema, não as pessoas.
Perguntas simples revelam os interesses ocultos por trás das posições.
A geração de opções é o momento de exercitar a criatividade para construir caminhos que atendam aos interesses de ambas as partes. O foco é o ganha-ganha: a satisfação de uma parte não deve comprometer a outra.
Críticas e recusas precipitadas bloqueiam ideias. Separe o ato de criar do ato de julgar.
Achar que existe apenas uma solução. Aumente o número de opções em vez de buscar uma só resposta.
Pensar que o ganho de um implica perda do outro. Busque ganhos mútuos e faça crescer o bolo.
Envolvimento emocional impede soluções atraentes para o outro lado. Peça sugestões ao colega da outra parte.

"Critérios objetivos, também chamados de padrões de legitimidade, são padrões aceitos no mercado, na comunidade ou em certas organizações, que auxiliam a estabelecer a justiça ou a correção de determinada solução." — Burbridge
Uma proposta sem critérios objetivos dificilmente será aceita. As noções de justiça (fairness) e legitimidade são, na visão de Bruce Patton, das mais poderosas motivações humanas nas negociações.
"MAPAN — Melhor Alternativa Para um Acordo Negociado" (BATNA em inglês). São todos os caminhos que restam caso não se feche o acordo pretendido. — Fisher e Ury
Proteger a si mesmo de um acordo ruim.
Extrair o máximo possível dos ativos disponíveis.
Premissa fundamental: quanto melhor for sua MAPAN/MASA, maior será o seu poder de negociação.
Criar uma lista de todas as opções disponíveis caso o acordo não seja fechado.
Transformar as ideias mais promissoras em alternativas reais e concretas.
Eleger a melhor alternativa entre as disponíveis — esta é sua MAPAN/MASA.

Incontáveis vezes os negociadores deixam valor na mesa por não explorar satisfatoriamente a ZOPA. Conhecer bem a MASA de ambos os lados é a chave para identificar e aproveitar essa zona.
Concordar rápido demais é um dos maiores perigos. Verifique sempre se a proposta supera sua MASA antes de aceitar.
Adotar um limite fixo pode evitar acordos ruins, mas também limita soluções criativas e entendimentos mais sensatos.
Estar emocionalmente comprometido sem ter desenvolvido a MASA leva a um pessimismo desnecessário sobre o não-acordo.
A demora excessiva pode fazer desaparecer a MASA negociada, enfraquecendo o poder de negociação.
O Programa de Negociação de Harvard destaca 7 elementos, sendo os últimos três de natureza subjetiva: Comunicação, Relacionamento e Compromisso. Eles são tão decisivos quanto os critérios objetivos.
"Sem comunicação não há negociação. A negociação é um processo de comunicação bilateral com o objetivo de se chegar a uma decisão conjunta." — Fisher e Ury
Palavras, tom de voz, ritmo da fala. Use a linguagem que o outro melhor entende.
Gestos, postura, olhar, silêncio, cruzamento de braços. O corpo fala tanto quanto as palavras.
Atos, omissões, reações e emoções também comunicam mensagens poderosas na negociação.
Omitir informações que poderiam contribuir para o acordo.
Manter o foco apenas no que se tem a dizer, sem prestar atenção na outra parte.
Falta de clareza ou dificuldade em encontrar oportunidade para se manifestar.
A mensagem pode ser interpretada de forma diferente da desejada, causando estragos na negociação.
"A habilidade de demonstrar de forma precisa e desprovida de julgamento o seu entendimento sobre os interesses, intenções e perspectivas do outro, sem que isso implique concordância." — Alessandra Mourão
Agir com empatia não significa concordar, mas ouvir e demonstrar compreensão, desarmando o outro na negociação.
Firmeza e clareza na exposição dos próprios interesses. Não se confunde com beligerância ou domínio da conversação.
Utilizando critérios objetivos de legitimidade, pode-se enfatizar a justiça das propostas de forma firme e respeitosa.
"A forma como expressamos nosso raciocínio pode impactar o ouvinte como um ganho ou uma perda em relação ao status quo ou a suas expectativas futuras." — Alessandra Mourão
O framing é a forma como se enfoca a comunicação com a outra parte. O mesmo resultado operacional pode ser apresentado como "o maior lucro da história" ou "o pior crescimento entre concorrentes" — os fatos são os mesmos, mas o enfoque muda radicalmente a percepção.
Pessoas retribuem o que recebem — inclusive concessões.
Todos desejam ser coerentes com compromissos públicos assumidos.
Tendemos a seguir o que muitos outros já fizeram ou aprovaram.
Dizemos sim àqueles de quem gostamos. Afinidades e elogios incentivam o gostar.
Argumentos de autoridade possuem ar de legitimidade e influenciam decisões.
Produtos e oportunidades se tornam mais desejados à medida que ficam menos disponíveis.
Uma boa relação fortalece a confiança, proporciona bom ambiente de trabalho e facilita o acordo. Além disso, facilita negociações futuras — a vida é cheia de surpresas e você pode se deparar novamente com o outro lado.
Valores fundamentais. Descarte truques, armadilhas e chantagem.
Mesas redondas simbolizam igualdade. Misture os negociadores para evitar "lado A" e "lado B".
Estabeleça tempo de fala, cronograma e prazos consensuais para estruturar o processo.

O compromisso é materializado no acordo — o que as partes se comprometem a fazer no futuro. A negociação baseada em princípios tende a produzir acordos mais sensatos e amistosos.
O acordo deve ser formulado com participação de todos. Ambas as partes devem ser "donas das ideias".
Escrito, conciso e articulado, evitando dúvidas de interpretação.
Prazos específicos, penalidades por descumprimento e garantias. O compromisso deve ser "exequível, exigível, prático e duradouro." — Alessandra Mourão
Resumo: Frank Turnbull alugou um apartamento por R$ 600/mês. Descobriu que o aluguel máximo legal era R$ 466/mês — R$ 134 a menos. Procurou a Sra. Jones para discutir o problema. Após várias sessões de negociação baseada em princípios, ela concordou em reembolsá-lo, e o tom tornou-se amistoso e apologético.
Levantamento de interesses, MASA, ZOPA e informações.
Geração de opções e criação de valor.
Distribuição do valor criado.
Formalização do compromisso.
Preservação do relacionamento pós-acordo.
Uma boa preparação é essencial para o sucesso. Quando as negociações se iniciam, o fator emocional pode dificultar a tomada de decisão. Quanto melhor preparado, mais seguro estará para aceitar ou rejeitar um acordo.
Do representado e da parte adversa
Sua e da outra parte
A serem levantadas
Propostas e critérios de legitimidade
Partes interessadas a consultar
A máxima "o pior acordo é melhor do que a melhor causa" não é verdadeira. Um acordo ruim pode colocar a parte em posição pior do que sem acordo algum.
Estudar antecipadamente as opções juridicamente viáveis. Apresentar fundamentação baseada em precedentes, legislação e parâmetros objetivos.
Planejar como apresentar as opções de forma vantajosa para a outra parte. A comunicação não verbal também deve ser planejada.
Simular a negociação com um colega no papel da outra parte. Melhora a comunicação, identifica falhas e dá segurança ao negociador.
Planejar o processo: tempo de fala, regras de reciprocidade, confidencialidade, prazos. Apresentar como sugestão, não imposição.
Antes de distribuir o bolo, é preciso fazê-lo crescer. Na fase de criação, o foco é na cooperação: encarar o problema como questão a ser resolvida por ambos, explorando soluções criativas que atendam aos interesses de todos.
A criação de opções permite a concepção de oportunidades de cooperação mútua que jamais seriam obtidas em uma condenação judicial.
Pontos de interesse coincidentes entre as partes. Identificá-los e apresentá-los de forma franca pode fazer o acordo avançar para um ambiente cooperativo.
Mesmo com interesses distintos, uma mesma opção pode gerar ganhos para ambas as partes. Ex.: "selo verde" para empresa em caso de dano ambiental.
Uma parte assume obrigação de custo baixo que representa alto ganho para a outra. Identificar esses trade-offs pode ser determinante para o fechamento.
Partes dão valores diferentes às mesmas coisas. Diferenças de tempo, risco e prognóstico criam oportunidades de acordo vantajoso para ambos.
Empresa não reconhece culpa. Poder Público não quer dar desconto. Negociação trava em argumentos jurídicos. Acordo improvável.
Poder Público oferece "selo verde" se empresa recuperar o dano. Empresa vê oportunidade de negócio e novo nicho de mercado. Acordo supera expectativas iniciais de ambos os lados.
Após criar valor, é hora de "dividir o bolo". A distribuição é para muitos a essência da negociação. Quanto mais bem preparados estiverem os negociadores, maiores as chances de que ambos fiquem satisfeitos com o resultado.
"A chave para um bom acordo pode não estar em saber o quanto determinado bem vale para si mesmo, mas sim no quanto ele vale para o outro." — Mnookin, Peppet e Tulumello
Experimentos sugerem que primeiras propostas ambiciosas tendem a puxar para perto de si a contraproposta. Lax e Sebenius: "A decisão de fazer a primeira oferta dependeria em parte do quanto de informação se tem sobre o valor de reserva da outra parte."
Olho por olho. Pode levar a confronto inútil e dar ao oponente justificativa para comportamento insensato.
Ceder à pressão ou a uma primeira proposta melhor que o esperado, sem explorar adequadamente a ZOPA.
Abandonar o processo por má compreensão ou conclusão açodada sobre o comportamento alheio.
Pedidos altos seguidos de pequenas concessões
Compromissos sobre procedimentos que limitam a liberdade de atuação
Apresentar a proposta como inegociável ("pegar ou largar")
Buscar nova proposta sem contrapartidas
Forçar propostas até obter sinais claros de que os limites foram atingidos
Pressão psicológica para enfraquecer a confiança do negociador
Blefes com informações falsas ou distorcidas
Ameaças quanto ao não atendimento de determinadas demandas
Depreciar as alternativas da outra parte
Jogo de equipe: ator agressivo faz proposta de outro parecer mais atraente
No fechamento, busca-se transformar todo o esforço em um compromisso. O maior risco é a ansiedade pela conclusão, que pode fazer deixar valores na mesa ou, pior, colocar tudo a perder.
"Se sentir que o outro lado esgotou seu limite de concessões, ou que se esvaiu seu limite de tempo, é melhor encerrar do que arriscar um rompimento." — Gestão da Negociação
Quando o oponente hesita: envolva-o no processo, incorpore suas ideias, satisfaça seus interesses básicos. "Torne mais fácil para ele dizer sim." — Ury
Por quê? O quê? Quanto? Quem? Como? Onde? Quando? O compromisso deve ser exequível, exigível, prático e duradouro.
"Ainda que celebrado o negócio jurídico, esteja pronto para resgatar sua reputação e preparar-se para eventual encontro futuro com as mesmas partes. O mundo é pequeno e, com a globalização, está cada vez menor." — Alessandra Mourão
Palavras gentis ao final
Oferecer ao oponente uma narrativa positiva
Reforçar a justiça do acordo
Gestos simbólicos de encerramento
No campo de batalha, a vitória é o grande objetivo. Numa negociação, o que se busca é a satisfação de todos os envolvidos.
"Negociação é mais do que argumentação racional. Seres humanos não são computadores. Suas emoções estarão lá. Do mesmo modo que a emoção dos outros também." — Fisher e Shapiro
As emoções podem ser utilizadas de forma produtiva, alavancando um acordo difícil, assim como podem encerrá-lo prematuramente. Compreender as emoções — próprias e alheias — não é tarefa fácil, mas é essencial.
"Em uma negociação amarga, os sentimentos poderão ser mais importantes que a conversa. O medo poderá gerar raiva e a raiva, medo. As emoções poderão levar rapidamente a negociação a um impasse." — Fisher, Ury e Patton
William Ury criou a metáfora de "ir à varanda" — parar momentaneamente o processo de negociação para dar um passo atrás e analisar mais objetivamente a situação, distanciando-se dos impulsos naturais e automáticos.
Uma ida ao banheiro, um telefonema, ou simplesmente repetir as palavras da outra parte.
Tomar decisões importantes sem refletir, por estar mais interessado em contra-atacar ou romper a relação.
Identificar a tática usada pela outra parte e buscar alternativas para superar o impasse.
Ter pensamentos, sentimentos e ações com mérito reconhecido.
Ser tratado como colega, não como adversário. Senso de conectividade.
Ter a liberdade de tomar decisões respeitada pelos outros.
Ter a posição relativa plenamente reconhecida e respeitada.
Sentir que o papel desempenhado na negociação é gratificante e realizador.
Fonte: Fisher e Shapiro, Além da Razão, 2009.
Always Consult Before Deciding: sempre consulte antes de decidir. A consulta inclui o outro no processo, gera aprendizado e mantém o poder de voto. Use o sistema INC: Informação, Consulta e Negociação para definir limites da própria autonomia.
Dar atenção ao status das outras pessoas pode torná-las mais corteses. Todos têm algum status particular que vale ser ressaltado, independentemente da posição hierárquica.
Aceite papéis temporários conforme a demanda do momento. Moldar o papel desempenhado torna a negociação mais gratificante e permite identificar padrões de comportamento da outra parte.
Foca nos méritos, não nas posições pessoais.
Vai além das posições para descobrir o que realmente move as partes.
Aumenta o bolo antes de distribuí-lo.
Fundamenta propostas em padrões legítimos e verificáveis.
Sobe à galeria, escuta ativamente e age com empatia e assertividade.
"O bom negociador não é só aquele que fecha o acordo, mas o que o implementa." — Teoria da Negociação de Harvard
Negociação